Fernanda Chemale

Alexandre Santos

O sentido performático da fotografia

O Fenômeno do Êxtase (1933) é o título de uma colagem fotográfica de Salvador Dali (1904-1989), na qual há o encontro de fragmentos de fotografias obscenas, retiradas de arquivos anônimos da virada do século XIX.  Diferentes recortes corporais indicam ao espectador, metonimicamente, o princípio do gozo, a entrega sem concessões ao êxtase sexual, como se estivéssemos num “espaço entre” das imagens. Olhando as fotografias de Fernanda Chemale, não vejo a mesma preocupação, mas seqüências documentais nas quais subjazem outras latências, tão provocadoras quanto aquelas trazidas à baila pelo ensaio de Dali. Inevitavelmente, sou levado a pensar sobre o sentido metonímico da fotografia, sempre ligada à fragmentação do mundo e da experiência vivida.

O universo do rock e seus protagonistas, captados pelas lentes da fotόgrafa, são homenagens ao tempo presente – tempo de rock, anos 80 e 90 – através da memória do tempo passado e do sentido ritualístico que segue envolvendo este segmento da cultura contemporânea. Como na noção ancestral de festa, na qual a musicalidade era elemento indispensável, no tempo de rock e de luz de Chemale encontramos um pensamento imagético que se interroga quanto ao limite entre as diferentes artes. É possível fazer o som virar imagem? Tal e qual o êxtase de Dali, nas silenciosas fotografias de Fernanda somos convidados não a ouvir, mas a sentir a musicalidade que circunda os registros, pois estamos num espaço visual de transição. Como em experiências semelhantes da fotografia de Alair Gomes (1921-1992) e Arthur Omar (1948), que se entregaram à captação dos olhares extasiados do transe carnavalesco, Fernanda nos mostra olhares agressivos, danças imprevisíveis, corpos que se lançam à turba hipnotizada, como se fosse possível flutuar. O que é o rock, afinal, senão vertigem, êxtase, inquietação, performance?

Na crescente realidade de imagens em que vivemos, falar em performance é pensar na edificação de um eu social idealizado. Na arte contemporânea, no entanto, a performance encarna toda uma provocação que, posta pela mise-en-scène, concretiza-se na memória, via de regra, pela imagem. O imprevisível se faz pela previsão, em consonância com um rito pré-estabelecido. Pensemos nas ações performáticas da body art e sua tentativa de recuperabilidade de um sentido artístico limiar à religiosidade, onde o corpo é elemento central. No rock há uma entrega parecida, envolvendo teatralização e memόria.

Se a representação humana na fotografia, desde sua invenção, sempre foi parte de uma cerimônia ritual que acompanhou, por exemplo, a iconografia do retrato fotográfico, podemos dizer que a fotografia – como primeira arte verdadeiramente popular que alargou a possibilidade do ver-se em imagens - é, por excelência, uma arte performática. A história do rock, neste eixo de raciocínio, também passa por um imaginário constituído por imagens fotográficas, seja das revistas especializadas ou das antigas capas de vinis. Quem não lembra de Janis Joplin, escondida em penachos e imensos óculos? Ou de David Bowie, transbordando androginia na capa do álbum The man who sold the world? Ou ainda, das cabeças dos Secos & Molhados, servidas em estranha mesa de banquete? Os exemplos de performances rockeiras, eternizadas em imagens, são inúmeros. Aliás, vale lembrar o filme Performance (1970), de Donald Cammel e Nicolas Roeg, cujo ator principal é ninguém menos do que um juvenil Mick Jagger.

Melhor lugar não há para inserir a memória do rock, do que o mundo à parte das fotografias, este mundo de bidimensionalidade, onde é possível planar, assim como vislumbrar as utopias necessárias a um mundo de transformações ainda muito lentas. O valor documental das imagens que Fernanda nos traz neste trabalho – quase vinte anos de coleta – é indubitável. Estamos diante de um inventário da história do rock local em imagens. Mas o elemento mais importante desta documentação é, sem dúvida, o sentido de ultrapassagem da pura informação visual, através de uma escritura existencial e subjetiva deste tempo específico. Em suas imagens, Chemale constrói uma espécie de autobiografia enquanto espectadora, personagem e narradora do clima que nutriu essa época.

Alexandre Santos

Historiador e Critico de Arte