Fernanda Chemale

ElefanteCidadeSerpente

ElefanteCidadeSerpente

Fiesta Casarão, Porto Alegre, 2005.
Ralo, São Paulo, 1996.
Astronauta, Porto Alegra, 1990.
Índio Africano, Rio de Janeiro, 1991.
Metal Caveira, Porto Alegre, 1991.
Boca da Garrafa, Montevideo, 1994.
Corrida, Porto Alegre, 2006.
Skate, Porto Alegre, 2006.
Passeantes
A Dama do Mar, Porto Alegre, 2004.
Cubatão, 1999.
Florianópolis, 2006.
Natal, Garopaba, 2006.
Auto Retrato, Arroio Teixeira, 2002.
Varal, Porto Alegre, 1992.
Stravaganza, Porto Alegre, 2005.

A Cidade e Suas Fendas Expressivas

Olhar a cidade, registrar seu cotidiano, sentir o pulsar irritante, perceber o movimento
incessante. Ver a cidade nem sempre significa veracidade. É exatamente essa a principal idéia
que perpassa no livro ElefanteCidadeSerpente, de Fernanda Chemale, que encarou o desafio
de criar uma coleção de fotografias sobre as cidades hoje, sem o compromisso de documentar
os edifícios, as avenidas, as pessoas, enfim, a história sociocultural do espaço urbano. Suas
imagens iconizam a mais pura sensação momentânea e efêmera de um passeante.

Fernanda assume olhar a cidade fotografando-a com uma acelerada visão, tipo zapping,
permitindo que nós, leitores, sejamos parcialmente responsáveis pela montagem de incríveis
caleidoscópios. Sua percepção aguçada, associada a um fantástico sentido de unidade fluida
e plástica, possibilita que o heterogêneo e a descontinuidade, presentes nas metrópoles
contemporâneas, apareçam como uma síntese que materializa seu gesto livre e expressivo.

Os fragmentos imagéticos estão dispostos em estranhos enquadramentos que
formam geometrias casuais e desenhos ilógicos. As imagens evidenciam as distorções, as
superposições, os movimentos, as cores, as luzes, tudo como num jogo indeciso, que embora
apreendido pela câmera, nem sempre permite desvendar os mistérios do mundo visível.
Fernanda busca, no seu enfrentamento com as cidades, relacionar formas, abrir fendas
expressivas no espaço tumultuado pela ação cotidiana, destacar as luzes e as sombras que
envolvem a cena, enquadrar paisagens em espelhos retrovisores, materializar as tensões das
coisas aparentes que compõem o espaço.

A edição de ElefanteCidadeSerpente também assume a idéia de serializar os
fragmentos de modo a potencializar a unidade do livro. Fernanda assume suas imagens
produzidas em trânsito (parte delas enquadradas a partir do automóvel em movimento) e,
portanto, seu gesto fotográfico é performático, pois nos deparamos com fotografias com forte
subjetividade, quase irreconhecíveis de imediato, nos obrigando a refletir sobre aquilo que
vemos para tentar imaginar essa vontade criativa de extrapolar o mundo visível.

A cidade representa um enorme conglomerado de edifícios, sólidos e imutáveis em
sua maioria; enquanto que ao fotógrafo passeante cabe a tarefa de desvendar os espaços da
urbe como um líquido viscoso que se nutre da força dos estranhos caminhos traçados quase
aleatoriamente pelos homens. Uma espécie de entendimento da cidade como o espaço que
deve ser percorrido e percebido a partir da curiosidade essencial do artista. No caso deste
ensaio, podemos ver uma fotografia que foi captada no próprio gesto de sua construção, no
gesto que deixa indícios na materialidade da imagem.

O pintor inglês Francis Bacon afirmava: “Figurar, em lugar de realizar, uma
materialização por meio de torções e deformações nas imagens”. Fernanda Chemale criou
manchas de cor, luz e movimento, com estranhos ruídos, superposições e distorções, que
aproximam o seu olhar da visão ativa e inovadora da fotografia brasileira contemporânea.

Rubens Fernandes Junior

pesquisador e crítico de fotografia, março 2008

 

Nas coisas banais do meu cotidiano encontro as imagens de ElefanteCidadeSerpente. Procuro os vestígios do homem urbano e me aproprio de seus objetos e espaços. As situações se apresentam em ações óbvias e casuais.  Explorando vidas humanas, vejo o quanto o anonimato das grandes cidades é particular e como em meu subconsciente tudo se rompe. O que é interior passa a ser exterior, suprimindo a fronteira entre realidade e imaginação.  Construindo essas imagens evoquei outros mundos, sugestionando dimensões de realidade, muitas vezes enigmáticas. Neste ambiente, o espectador é desafiado a decifrá-las.
Fotografia oculta, paradoxal e subversiva.
O abstrato está sobre o figurativo.
O contexto, saturado.
O mundo real é transformado em virtual.             

Fernanda Chemale

FotoSeptiembre USA-SAFOTO

Fotograma 2009